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Archive for 29 de abril de 2008

Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 5, 1998

Nessa viagem, meu primeiro destino era Rimini, Itália, para participar de um congresso. Minha agente de viagem organizou tudo, e decidiu que eu deveria ir até Madrid, tomar outro avião até Roma, e de lá partir de trem para Rimini, a Amacord de Fellini, uma agradabilíssima estação de veraneio no mar Adriático. Logo descobri que minha agente tinha rateado. O melhor teria sido ir de Madrid para Bolonha, e de lá para Rimini. No avião para Roma, dois padres, com batina preta, sentaram-se ao meu lado. Simpáticos, disseram-me que a melhor opção para ir do aeroporto até a stazione Termini (como eles chama a estação central) era de treno (não, não é trenó, é trem) de modo que programei meu consciente e meu inconsciente para pegar il primo treno que partisse do aeroporto. Às nove e meia aterrissamos em Roma, mas entre apanhar a bagagem, que demorou a aparecer na esteira, fazer um pipi e descobri onde se pega il treno para Termini, lá se foram uns bons noventa minutos. Enfrentar italiano que não fala inglês nem francês, é duro!

Depois de atravessar uns bons cento e cinqüenta metros, do hall do aeroporto até a plataforma do trem, fiquei desolado ao perceber que não havia viv’alma para dar informações. De repente apareceu um servente que me indicou a plataforma. Eu deveria, pelo que entendi, pegar o trem para Tiburtino e depois para Termini. Agora, só faltava comprar o bilhete. Como eu, havia um monte de ignorantes em volta das bigleterias automáticas. “Aperta esse botão?”, dizia um deles em espanhol. “Não, aquele outro!”, respondia alguém em inglês. Tudo agonia de viajante vexado, pois bastou um pouco de calma para descobrir como tudo aquilo funcionava. Apertei o botão para Termini; a tela indicou a tarifa: treze mil liras (1 dólar equivalia aproximadamente a 1.560,00 liras); coloquei duas notas de dez mil liras, e a máquina soltou o bilhete e 14 moedas de 500 liras. Maravilha! Bilhete na mão, o problema era não pegar o trem errado. Às 23 horas, isso seria uma tragédia!

Como eu, mais perdido que ganso em festa de pato, havia uma família que falava espanhol. Naquele corre-corre, nem percebi quantos eram. Havia um homem, uma mulher que falava muito, perguntava, tomava iniciativa; outra mulher, mais calma, e duas ou três crianças. Um trem, não sei para onde, estava estacionado na plataforma; um italiano, aparentemente um funcionário, tentou nos explicar, mas não entendemos absolutamente nada! A essa altura, parte da família já havia subido no trem; ficamos eu e o chefe da família, brigando com nossas malas para passar na porta que já estava fechando. Trem em movimento, todo mundo lá dentro sem saber como chegar em Termini. Abandonando as bagagens no corredor, mas com o olho atento, corre um pra cada lado para ver se encontra alguém que fale uma língua compreensível. No carro seguinte, encontrei um jovem e simpático casal que falava um sofrível, mas compreensível francês. Ufa, que alívio! Me explicaram tudo direitinho. Aquele trem não ia até Termini! Que boa notícia! Deveríamos saltar em Ostiense e pegar o metrô até a estação central.

Quando retornei ao carro onde se encontrava minha bagagem, percebi que parte da família tinha caminhado até o carro seguinte, deixando a mulher agitada para trás. Um pouco mais aliviado, ensopado de suor, perguntei se ela falava francês (me agrada mais do que o espanhol). Sim, falava. Descobri que era uma professora de paleontologia da Universidade do Chile, que estava vindo de um congresso na China. “Por que o resto do pessoal foi para o outro carro?”, perguntei. “Não sei”, respondeu. “Vocês não estão juntos?”. “Não, é uma família chilena que conheci no vôo Paris-Roma”. Estava indo para uma conferência em Siene, e pernoitaria num hotel que ela conhecia, próximo à estação Termini.

Descemos em Ostiense, mas não vimos a família chilena. Ou se enganaram, ou tomaram outra informação. Quase meia-noite, e não aparecia viv’alma para nos orientar naqueles corredores subterrâneos. Caminhamos um pouco e encontramos dois policiais que nos aconselharam a pegar um táxi, porque com o nosso monte de bagagem, não ia ser fácil apanhar o metrô. O primeiro “táxi” que encontramos era um furgão, com espaço para a bagagem de um avião. Acertamos o preço até Termini: vinte mil liras, com direito a passar nas proximidades do Coliseu.

No Hotel Siracuse, bem em frente à estação Termini, um dos funcionários pensou que estávamos juntos e começou a preencher a ficha de um apartamento duplo, enquanto discutíamos os preços com outro funcionário. Engano desfeito, cada um pagou, adiantado, oitenta mil liras por um single-room com toilete.

Por volta do meio-dia peguei o trem Roma-Ancona, com conexão para Rimini em Falconara.

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Texto revisado em 22 de agosto de 1998

No trem Ravena-Bolonha, procedente de Varsóvia, gente humilde que varou a noite naquelas poltronas de 2a classe. Um forte e insuportável cheiro de urina nos corredores. Com o pensamento viajo para longe; penso em Areia Branca, Natal, Porto Alegre, mas o mal cheiro não arreda o pé. Felizmente o trajeto é curto.

Em população, Bolonha é bem menor do que Natal, mas o maior desenvolvimento econômico é visível. Na estação de trem peguei um ônibus para o aeroporto Marconi, que é bem maior do que o nosso Augusto Severo, mas não tem um relógio para nos orientar, e o bar é menor do que o nosso. Leio, num jornal local (il Resto del Carlino) que Dirceuzinho (ex-ponta direita da seleção brasileira) morreu num desastre automobilístico no Rio. Pela matéria, percebe-se o cartaz que ele tinha por aqui.

Fizemos o trecho Bolonha-Milão num desses aviões pequenos que os europeus costumam usar nas viagens domésticas. Um pouco de balanço, mas nada grave! Milão tem uma população assim como a de Porto Alegre, mas um aeroporto quase igual ao Galeão, com um enorme free shop. Fim de verão, aeroportos abarrotados de gente voltando das férias; vôos atrasados, frio na espinha. Chegar em Lyon tarde da noite, para quem vai para Grenoble é um horror! Não deu outra, o vôo só foi sair depois das 22 horas, chegando em Lyon depois das 23 horas. Quando cheguei na plataforma de ônibus, perdi o último que saía para Grenoble. Um estudante na mesma situação, propôs dividirmos um táxi; quinhentos francos para cada um. Uma nota preta!

No dia seguinte, um domingo, dei uma volta pelo centre ville para matar a saudade: praça Victor Hugo, Praça Grenettepraça Grenette, rua Félix Poulat, boulevard Gambetta, avenida Alsace-Lorraine, … “Grenoble” que o visitante menos avisado percebe, não é Grenoble; é a região grenobloise, um conjunto com mais de quinze cidades, de tal modo interligadas que mais parecem bairros de Grenoble. Essa região, com uma população da ordem de quinhentos mil habitantes, tem maravilhosos recantos montanhosos e estações de esqui.

Não dá para descrever aqui, com razoável detalhe, toda a região grenoblense, mas talvez seja interessante destacar alguns aspectos histórico-turísticos. Por exemplo, pouca gente sabe que a Revolução Francesa nasceu numa reunião no castelo de Vizille (uma cidadezinha a 15 km de Grenoble), no dia 21 de julho de 1788; portanto, um ano antes da data que se comemora.Castelo de Vizille

Curaro, uma pequena vila gaulesa, transforma-se em Grenoble depois de conquistada pelos romanos, bem antes do nascimento de Cristo. Cidade natal de Stendhal, autor de Le Rouge et le noir, Grenoble é também a cidade por onde passou muita gente importante. Em 1768, Jean-Jacques Rousseau tentou repousar aqui anonimamente, com o pseudônimo de Monsieur Renon, mas foi logo reconhecido, e bem acolhido e paparicado pela população, então mais do que provinciana. Hector Berlioz, na primeira metade do século dezenove, teve aqui uma ardente e não correspondida paixão.

O Vercors, uma bela região montanhosa ao lado de Grenoble, e que teve trágico e importante papel na resistência francesa durante a segunda guerra mundial, é hoje um ponto turístico imperdível, com algumas estações de esqui, várias grutas e verdadeiros túneis naturais, que os franceses chamam de gargantas (gorges). garganta bourne, no vercorsUm passeio, promenade, como dizem os franceses, numa manhã de outono em Villard de Lans, é algo deslumbrante. A primavera tem uma incontestável beleza visual, mas o bem-estar de uma amena manhã outonal é incomparável. Villard de Lans é a capital turística do Vercors.

Nos tempos modernos, Grenoble se destaca pela sua vocação para os empreendimentos tecnológicos. Foi aqui que, na segunda metade do século passado, se descobriu a energia hidroelétrica (houille blanche), e é aqui que acabou de ser construído o sincrotron mais potente do mundo, um monumental equipamento para pesquisas em ciências dos materiais. Depois de Paris, Grenoble é o pólo técnico-científico mais importante da França.

Aproveito a oportunidade de estar em Grenoble para fazer uma visita a Annecy, situada ao norte, na direção da Suiça. Na verdade, mais próxima de Genebra do que de Grenoble. Já não sei mais quantas vezes visitei essa aprazível cidadezinha. Venho aqui só para perambular pelas suas ruelas, e em volta do seu azulado lago. Em companhia de Luis e Carla, um casal de amigos paulistas, festejo meu aniversário neste 7 de outubro, mesmo dia em que os colonos da região comemoram o retour des alpages, uma festa que enche a cidade de visitantes para saborear a comida savoyard, comprar produtos artesanais e assistir às manifestações culturais (canto e dança) desse simpático povo.

 

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