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Archive for abril \29\-03:00 2008

Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 3, 1998

Aproveitando a deixa do artigo assinado pelo Rodrigues, quero dizer que tenho diversas e belas recordações do Cine Miramar e do Cine São Raimundo, principalmente porque, fazendo minhas as palavras da titia roqueira Rita Lee, “ No escurinho do cinema / chupando drops de anis / longe de qualquer problema / perto de um final feliz ”, era como nos sentíamos naqueles anos sessenta. Não lembro qual o primeiro filme que assisti. Certamente foi numa vesperal do Cine São Raimundo, pois em meados dos anos cinqüenta este era o Cine Cel. Faustoúnico cinema em Areia Branca. O Cine Cel. Fausto, como cinema, é uma imagem difusa na minha mente. Não lembro de ter aí assistido filme. Lembro do prédio ainda inteiro, e com o passar dos anos acompanhei seu progressivo desmoronamento. No canto direito da foto à esquerda, um dos últimos registros do Cel. Fausto.

Com a completa transformação do prédio do Cine São Raimundo, o Cine Miramar é o que resta de registro arquitetônico da sétima arte em Areia Branca. Cine São RaimundoNa foto à direita, Antônio do Vale pretendia registrar uma enchente nos anos sessenta, mas captou, ao fundo (à direita) o antigo prédio do Cine São Raimundo.

Ao que me lembro, esses foram os únicos cinemas de Areia Branca. A propósito, quem lembra o primeiro filme projetado no Cine Miramar? Tenho a impressão que foi “Folhas Secas”. Terá sido isso mesmo?

Logo após a inauguração do Cine Miramar (prédio de 2 andares), um colega nosso conseguiu roubar uma chave que abria a porta Cine Miramardos fundos, que ficava no beco da Galinha Morta (ah! Que memória horrorosa! Tenho dúvidas se estou falando do beco correto. Ocorreu-me que o beco da Galinha Morta poderia ser aquele que desembocava na “rua da Saudade”, em cuja esquina ficava a oficina de Reinério -saudades de Wellington!). Enfim, correto ou não o apelido do beco, o fato é que entrávamos com a maior tranqüilidade e assistíamos filmes e mais filmes gratuitamente. Não lembro exatamente como essa história terminou, mas sei bem que perdemos a chave. Creio que Clécio lembra disso. Perguntarei depois.

Outro dia acompanhei um debate num programa de rádio aqui em Porto Alegre , sobre o “escurinho do cinema”. Descobri que, tantos anos passados, tecnologia virtual, DVD, vídeo laser, liberdade sexual, camisinha (e uso de), nada disso foi capaz de acabar com a mística do namoro no cinema. Neste particular, o mezanino do Cine São Raimundo era imbatível. Todos sabíamos, para se ver um filme bem acompanhado no Cine São Raimundo, teríamos que sentar lá em cima, de preferência na última fila de cadeiras, ao lado do box onde ficava a câmara de projeção. Tinha-se que chegar bem cedo, para sentar na última cadeira do mezanino.

A propósito, lembro de uma história bem interessante. Lá pelos anos 60, dois amigos namoravam duas amigas. Costumavam ir juntos ao cinema. As meninas, muito assanhadas, insinuavam as possibilidades de carícias mais apimentadas. Chicletes rolavam de uma para outra boca, atingindo o clímax num incomensurável prazer. Aparentemente, o mais jovem dos meninos não tinha conhecimento dessa prática, corriqueira entre os mais velhos. Na saída do cinema o mais velho perguntou ao mais jovem:

– Sua namorada lhe deu um confeito?

– Deu, respondeu o mais jovem.

– O que você fez com ele?, perguntou o mais velho.

– Comi , respondeu o mais jovem, com a candura de um amante neófito.

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Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 4, 1998

Esta é a continuação da crônica anterior, publicada na edição de agosto/98 de Primeira Mão (Pequena aventura em Roma). Saí do hotel por volta das nove horas, atravessei a rua e fui tomar café na stazione Termini, a estação central de Roma, de onde partem todos os trens para o interior do país. Fica nas proximidades do Coliseu, não muito afastada do Vaticano. Depois de um saboroso cappuccino, acompanhado de um sanduíche do mais legítimo salame italiano, fui comprar meu biglietto di viaggio Roma-Ancona, com conexão em Falconara.

Logo que entrei no carro para não fumantes, tentei obter algumas informações sobre a viagem. Nas poltronas ao lado, dois casais idosos tentaram, mas não conseguiram se fazer entender. Tudo que entendi, o óbvio, era que Falconara ficava antes de Ancona. Eles diziam, pausadamente:

Roma-Ancona. Cambiato Falconara.

Nesse momento senta um sujeito na poltrona em frente. Fui logo perguntando:

Parlez vous Français?

No

foi a resposta, acompanhada de um leve sorriso. Não desanimei:

Do you speak English?

Yes, I do”.

Que bom, pensei, agora saberei tudo sobre a viagem. Imediatamente após esse primeiro contato, o sujeito mexeu na sua mochila, consultou alguns papéis e disse que ia telefonar na plataforma. Largou a mochila na poltrona e falou:

Voltarei em seguida”.

Fiquei apavorado. Saí do Brasil absolutamente paranóico com os atentados de terroristas islâmicos ocorridos na Europa, principalmente na França, durante aquele ano de 1995. A paranóia se instalou; não pude evitar a dúvida: e se nessa mochila tiver uma bomba? Observei-o enquanto falava no telefone; a paranóia cresceu: e se ele estiver comunicando que fez o “serviço”? Suor frio nas mãos, tensão braba, comecei a imaginar uma estratégia de reação: se naquele momento o trem partisse sem o sujeito, eu já estava pronto para dar o alarme. Relaxei quando o rapaz retornou ao seu lugar. Essa paranóia me acompanhou durante toda a viagem, principalmente na França. Qualquer pessoa com um pacote era “suspeita”. E se tivesse o biótipo argelino, pronto! Ali estaria um potencial terrorista do GIA (Grupo Islâmico Armado).

Desfeito o engano, fiquei sabendo que se tratava de um engenheiro de telecomunicações, com aparente índole pacífica e muito prestativo. Informou que existem many stops no trajeto, mas que não há qualquer cidade importante. Entre as várias cidadezinhas, destacam-se Terni, Spoleto, Foligno e Fabriano, quase todas com estações tipicamente de interior: apenas uma plataforma com cobertura. Descobri, enfim, que se tratava de um verdadeiro pinga-pinga, que leva cinco horas e meia até Falconara. Lá a parada é rápida, “few minutes”, disse-me ele. Pronto, mais um motivo para preocupação. Como eu ia me safar com toda a minha bagagem? Deverei me preparar um pouco antes, pensei. Não, nada de pânico; meu casual companheiro de viagem também descerá em Falconara, e deverá me ajudar. Assim espero! Mais uma vez relaxei e retomamos a conversa.

A certa altura da viagem aparece o fiscal para conferir os bilhetes; descobri que tinha esquecido de convalidar (em Italiano a palavra também é essa) o dito cujo na plataforma da estação. O fiscal disse algo, e o colega traduziu: “ele está perguntando por que você não convalidou o bilhete”. Respondi que tinha esquecido. O fiscal deixou prá lá, mas me repreendeu pelo esquecimento. Se ele não tivesse me liberado, a multa seria de sessenta mil liras (a passagem custou trinta mil liras).

A propósito, duas historinhas recentes sobre isso. Uma aconteceu em Rimini, com uma colega carioca. Do centro da cidade, até o local do congresso, não é muito longe; dá para ir a pé, tranqüilamente, mas ela estava com pressa, e resolveu ir de ônibus. Comprou o bilhete (seis mil liras), mas esqueceu de convalidá-lo. Surpreendida pelo fiscal, ela, que fala Italiano fluentemente, se fez de inocente e danou-se a falar em Inglês, dizendo que não tinha visto a máquina para convalidar o bilhete, etc, etc. Os fiscais, que provavelmente não estavam entendendo nada do que ela falava, começaram a falar “polizia”, “polizia”. Foi aí que ela entendeu que não tinha qualquer chance, e rapidamente começou a perguntar, sempre em Inglês, quanto era a multa. Pagou, sem direito a choro, a bagatela de sessenta mil liras. Ficou brabíssima!

A outra história me foi contada por uma garota (gaúcha) que conheci no Galeão, no dia que estava voltando (3/12/95). Ela fazia uma viagem entre duas cidades italianas; não lembro quais. Quando percebeu que tinha esquecido de convalidar o bilhete, correu para dizer ao fiscal, antes que este iniciasse seu trabalho. Resposta: “como você se declarou culpada, vou cobrar apenas dez mil liras de multa, ao invés dos sessenta mil”.

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Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 5, 1998

Nessa viagem, meu primeiro destino era Rimini, Itália, para participar de um congresso. Minha agente de viagem organizou tudo, e decidiu que eu deveria ir até Madrid, tomar outro avião até Roma, e de lá partir de trem para Rimini, a Amacord de Fellini, uma agradabilíssima estação de veraneio no mar Adriático. Logo descobri que minha agente tinha rateado. O melhor teria sido ir de Madrid para Bolonha, e de lá para Rimini. No avião para Roma, dois padres, com batina preta, sentaram-se ao meu lado. Simpáticos, disseram-me que a melhor opção para ir do aeroporto até a stazione Termini (como eles chama a estação central) era de treno (não, não é trenó, é trem) de modo que programei meu consciente e meu inconsciente para pegar il primo treno que partisse do aeroporto. Às nove e meia aterrissamos em Roma, mas entre apanhar a bagagem, que demorou a aparecer na esteira, fazer um pipi e descobri onde se pega il treno para Termini, lá se foram uns bons noventa minutos. Enfrentar italiano que não fala inglês nem francês, é duro!

Depois de atravessar uns bons cento e cinqüenta metros, do hall do aeroporto até a plataforma do trem, fiquei desolado ao perceber que não havia viv’alma para dar informações. De repente apareceu um servente que me indicou a plataforma. Eu deveria, pelo que entendi, pegar o trem para Tiburtino e depois para Termini. Agora, só faltava comprar o bilhete. Como eu, havia um monte de ignorantes em volta das bigleterias automáticas. “Aperta esse botão?”, dizia um deles em espanhol. “Não, aquele outro!”, respondia alguém em inglês. Tudo agonia de viajante vexado, pois bastou um pouco de calma para descobrir como tudo aquilo funcionava. Apertei o botão para Termini; a tela indicou a tarifa: treze mil liras (1 dólar equivalia aproximadamente a 1.560,00 liras); coloquei duas notas de dez mil liras, e a máquina soltou o bilhete e 14 moedas de 500 liras. Maravilha! Bilhete na mão, o problema era não pegar o trem errado. Às 23 horas, isso seria uma tragédia!

Como eu, mais perdido que ganso em festa de pato, havia uma família que falava espanhol. Naquele corre-corre, nem percebi quantos eram. Havia um homem, uma mulher que falava muito, perguntava, tomava iniciativa; outra mulher, mais calma, e duas ou três crianças. Um trem, não sei para onde, estava estacionado na plataforma; um italiano, aparentemente um funcionário, tentou nos explicar, mas não entendemos absolutamente nada! A essa altura, parte da família já havia subido no trem; ficamos eu e o chefe da família, brigando com nossas malas para passar na porta que já estava fechando. Trem em movimento, todo mundo lá dentro sem saber como chegar em Termini. Abandonando as bagagens no corredor, mas com o olho atento, corre um pra cada lado para ver se encontra alguém que fale uma língua compreensível. No carro seguinte, encontrei um jovem e simpático casal que falava um sofrível, mas compreensível francês. Ufa, que alívio! Me explicaram tudo direitinho. Aquele trem não ia até Termini! Que boa notícia! Deveríamos saltar em Ostiense e pegar o metrô até a estação central.

Quando retornei ao carro onde se encontrava minha bagagem, percebi que parte da família tinha caminhado até o carro seguinte, deixando a mulher agitada para trás. Um pouco mais aliviado, ensopado de suor, perguntei se ela falava francês (me agrada mais do que o espanhol). Sim, falava. Descobri que era uma professora de paleontologia da Universidade do Chile, que estava vindo de um congresso na China. “Por que o resto do pessoal foi para o outro carro?”, perguntei. “Não sei”, respondeu. “Vocês não estão juntos?”. “Não, é uma família chilena que conheci no vôo Paris-Roma”. Estava indo para uma conferência em Siene, e pernoitaria num hotel que ela conhecia, próximo à estação Termini.

Descemos em Ostiense, mas não vimos a família chilena. Ou se enganaram, ou tomaram outra informação. Quase meia-noite, e não aparecia viv’alma para nos orientar naqueles corredores subterrâneos. Caminhamos um pouco e encontramos dois policiais que nos aconselharam a pegar um táxi, porque com o nosso monte de bagagem, não ia ser fácil apanhar o metrô. O primeiro “táxi” que encontramos era um furgão, com espaço para a bagagem de um avião. Acertamos o preço até Termini: vinte mil liras, com direito a passar nas proximidades do Coliseu.

No Hotel Siracuse, bem em frente à estação Termini, um dos funcionários pensou que estávamos juntos e começou a preencher a ficha de um apartamento duplo, enquanto discutíamos os preços com outro funcionário. Engano desfeito, cada um pagou, adiantado, oitenta mil liras por um single-room com toilete.

Por volta do meio-dia peguei o trem Roma-Ancona, com conexão para Rimini em Falconara.

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Texto revisado em 22 de agosto de 1998

No trem Ravena-Bolonha, procedente de Varsóvia, gente humilde que varou a noite naquelas poltronas de 2a classe. Um forte e insuportável cheiro de urina nos corredores. Com o pensamento viajo para longe; penso em Areia Branca, Natal, Porto Alegre, mas o mal cheiro não arreda o pé. Felizmente o trajeto é curto.

Em população, Bolonha é bem menor do que Natal, mas o maior desenvolvimento econômico é visível. Na estação de trem peguei um ônibus para o aeroporto Marconi, que é bem maior do que o nosso Augusto Severo, mas não tem um relógio para nos orientar, e o bar é menor do que o nosso. Leio, num jornal local (il Resto del Carlino) que Dirceuzinho (ex-ponta direita da seleção brasileira) morreu num desastre automobilístico no Rio. Pela matéria, percebe-se o cartaz que ele tinha por aqui.

Fizemos o trecho Bolonha-Milão num desses aviões pequenos que os europeus costumam usar nas viagens domésticas. Um pouco de balanço, mas nada grave! Milão tem uma população assim como a de Porto Alegre, mas um aeroporto quase igual ao Galeão, com um enorme free shop. Fim de verão, aeroportos abarrotados de gente voltando das férias; vôos atrasados, frio na espinha. Chegar em Lyon tarde da noite, para quem vai para Grenoble é um horror! Não deu outra, o vôo só foi sair depois das 22 horas, chegando em Lyon depois das 23 horas. Quando cheguei na plataforma de ônibus, perdi o último que saía para Grenoble. Um estudante na mesma situação, propôs dividirmos um táxi; quinhentos francos para cada um. Uma nota preta!

No dia seguinte, um domingo, dei uma volta pelo centre ville para matar a saudade: praça Victor Hugo, Praça Grenettepraça Grenette, rua Félix Poulat, boulevard Gambetta, avenida Alsace-Lorraine, … “Grenoble” que o visitante menos avisado percebe, não é Grenoble; é a região grenobloise, um conjunto com mais de quinze cidades, de tal modo interligadas que mais parecem bairros de Grenoble. Essa região, com uma população da ordem de quinhentos mil habitantes, tem maravilhosos recantos montanhosos e estações de esqui.

Não dá para descrever aqui, com razoável detalhe, toda a região grenoblense, mas talvez seja interessante destacar alguns aspectos histórico-turísticos. Por exemplo, pouca gente sabe que a Revolução Francesa nasceu numa reunião no castelo de Vizille (uma cidadezinha a 15 km de Grenoble), no dia 21 de julho de 1788; portanto, um ano antes da data que se comemora.Castelo de Vizille

Curaro, uma pequena vila gaulesa, transforma-se em Grenoble depois de conquistada pelos romanos, bem antes do nascimento de Cristo. Cidade natal de Stendhal, autor de Le Rouge et le noir, Grenoble é também a cidade por onde passou muita gente importante. Em 1768, Jean-Jacques Rousseau tentou repousar aqui anonimamente, com o pseudônimo de Monsieur Renon, mas foi logo reconhecido, e bem acolhido e paparicado pela população, então mais do que provinciana. Hector Berlioz, na primeira metade do século dezenove, teve aqui uma ardente e não correspondida paixão.

O Vercors, uma bela região montanhosa ao lado de Grenoble, e que teve trágico e importante papel na resistência francesa durante a segunda guerra mundial, é hoje um ponto turístico imperdível, com algumas estações de esqui, várias grutas e verdadeiros túneis naturais, que os franceses chamam de gargantas (gorges). garganta bourne, no vercorsUm passeio, promenade, como dizem os franceses, numa manhã de outono em Villard de Lans, é algo deslumbrante. A primavera tem uma incontestável beleza visual, mas o bem-estar de uma amena manhã outonal é incomparável. Villard de Lans é a capital turística do Vercors.

Nos tempos modernos, Grenoble se destaca pela sua vocação para os empreendimentos tecnológicos. Foi aqui que, na segunda metade do século passado, se descobriu a energia hidroelétrica (houille blanche), e é aqui que acabou de ser construído o sincrotron mais potente do mundo, um monumental equipamento para pesquisas em ciências dos materiais. Depois de Paris, Grenoble é o pólo técnico-científico mais importante da França.

Aproveito a oportunidade de estar em Grenoble para fazer uma visita a Annecy, situada ao norte, na direção da Suiça. Na verdade, mais próxima de Genebra do que de Grenoble. Já não sei mais quantas vezes visitei essa aprazível cidadezinha. Venho aqui só para perambular pelas suas ruelas, e em volta do seu azulado lago. Em companhia de Luis e Carla, um casal de amigos paulistas, festejo meu aniversário neste 7 de outubro, mesmo dia em que os colonos da região comemoram o retour des alpages, uma festa que enche a cidade de visitantes para saborear a comida savoyard, comprar produtos artesanais e assistir às manifestações culturais (canto e dança) desse simpático povo.

 

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© 2002 C.A. dos Santos
Texto revisado em dezembro/2002

O texto que se segue foi elaborado a partir de informações prestadas por um freqüentador do bar Brisa do Mar. A seu pedido, permanecerá no anonimato.

Nos anos sessenta, o bar Brisa do Mar era um ponto de encontro do meio intelectual natalense. Entenda-se, para usar uma expressão da época, era o ponto de encontro do underground. Hoje poderia muito bem ser classificado como um bar GLS. Ficava na margem do rio Potengi, na altura da rua João da Mata, próximo à Casa do Estudante, os principais freqüentadores do recinto.

Também ficava perto da Pedra do Rosário, de onde este belo pôr-do-sol foi captado (http://flog.digizap.com.br/flog.php?cod_foto=30558&cod_usuario=579).

Depois trocaram o nome do bar. Passou a chamar-se Brisa del Mare. Já tinha essa bobagem naquela época. Era o início da grande Greenville em que se transformou este país.

Além dessas circunstâncias sociológicas, o bar era famoso pelo
carangueijo no leite de côco
, preparado por Nazareno, a
Madame Satã
potiguar. Como o malandro e homossexual carioca, Nazareno também era um negrão forte, e costumava desafiar machões e valentões, batendo no peito e falando alto:

Sou muito mulher para bater em você.

Certa noite de lua cheia, o bar lotado, a farra corria solta. De repente, falta luz na cidade. Blecaute total. Imediatamente, alguém, com voz de soprano, grita na sua típica afetação:

Atenção, atenção, vamos fazer a chamada: Jane.

– Presente, respondeu outra na mais estridente fanfarra.

Os nomes sucederam-se: Odete, Cristina, Gigliola, Ariene…

A cada nome, um presente ora escandaloso, ora comedido.

A luz chegou e alguém começou a dedilhar malaguenha no seu bem afinado violão. Uma dançarina, com calça Saint-Tropez coladíssima no corpo, ensaia trejeitos castelhanos.

A birita já tinha chegado ao meu limite quando descobri que a linda menina dos meus desejos estava com sua namorada, vigilante namorada, entenda-se.

Notas

Carangueijo no leite de côco: Usualmente, o carangueijo é preparado n’água e sal. Coloca-se o carangueijo vivo na água fervendo e adiciona-se sal. Quando o carangueijo fica vermelho, está pronto. Parece que Nazareno foi um dos primeiros a preparar o carangueijo com leite de côco. A receita é ótima, e desde então passou a ser muito utilizada. volta.

Madame Satã: João Francisco dos Santos, malandro, preto, pobre e homossexual, transformou-se em personagem folclórica da boêmia carioca na Lapa dos anos trinta. Com o apelido de Madame Satã virou mito de coragem na brigas de rua. volta

Calça Saint Tropez: Foi moda nos anos sessenta. Trata-se de uma calça com o cós bem abaixo do umbigo. Está de volta neste novo século. volta

Birita: Bebida. volta

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