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Archive for 2 de maio de 2008

Texto escrito em 16 de junho de 1998

Estou em meio a uma viagem que teve início em São Paulo, com escalas em Madri e Roma. Em Roma tomei o trem para Rimini , com baldeação em Falconara. Essa parte foi relatada na crônica Pequena aventura em Roma.

www.weather-forecast.com/locationmaps/AnconaFalconaraINT.jpg


Logo depois da chegada em Falconara, por volta das 17 horas, tomei o trem para Rimini, seguindo um trajeto à margem do mar Mediterrâneo (mais precisamente, à margem do mar Adriático), cheio de estações de veraneio. Quando se vê essa região de perto, entende-se claramente porque os europeus ficam loucos pelas praias brasileiras. Foto extraída de http://www.provincia.ancona.it/

A ICAME, International Conference on the Applications of the Mössbauer Effect ( 10 a 16/09/95) foi, do ponto de vista organizacional, um desastre. Não vou discutir aqui o aspecto científico, que foi bastante bom, mas talvez não interesse aos leitores potenciais desses apontamentos. A cidade não tem, aparentemente, um local onde se possa organizar todo o evento. Assim, as conferências são apresentadas no belo Teatro Novelli; às 11 horas e às 17 horas temos intervalos para sucos e cafezinho acompanhados de biscoitos, servidos nos jardins do Grand Hotel, a 200 metros do teatro; os painéis são apresentados em outra dependência do Grand Hotel, entre 14 e 17 horas. O controle dos participantes é extremamente rígido, sendo impossível participar de qualquer evento (conferência, poster ou café) sem a comprovação de que está inscrito no congresso (500 dólares). Nas conferências e no salão dos painés, temos que portar nosso crachá, e para cada cafezinho recebemos um ticket, que devemos entregar a lindas recepcionistas, bem uniformizadas, na entrada do Grand Hotel. Sucos, biscoitos e cafezinho dispostos em duas grandes mesas, com bem uniformizados garçons para servir. Para isso temos que enfrentar uma fila enorme. Tudo muito sofisticado, mas pouco prático. Em Caxambu, onde organizamos um congresso para mais de 1000 pessoas (quase o triplo do que se tem aqui), nunca necessitamos de filas para o cafezinho. Simplesmente colocamos garrafas, copinhos, sucos e biscoitos em mesas próximas aos painéis, e cada um vai se servindo à vontade.

Rimini, a Amarcord de Fellini, é uma conhecida e agradabilíssima estação de veraneio, no mar Adriático, com calçadas no interior de alamedas de plátanos. Com 120 mil habitantes, a cidade me impressionou pelo número de livrarias. A enorme quantidade de bares e restaurantes não surpreende, em se tratando de uma cidade turística. Ficamos (o Lívio e eu) no Hotel Centrale Lido, um simpático 2 estrelas próximo ao Teatro Novelli. Nesses termos, ficamos bem acomodados. Alguns colegas ficaram bem distantes dos locais dos eventos. Nesses dias, um grupo de velhinhos e velhinhas, acompanhados por uma jovem (paramédida?), passam suas férias de verão no hotel. É uma festa isso aqui. Aliás, fizeram uma festa de arromba no último dia das férias, um dia antes da nossa partida. Chegamos ao hotel por volta das 11 horas e o baile corria solto. Nos convidaram e aceitamos tomar um vinho com bolo.

A família Malatesta, que dominou a cidade lá pelos idos do século 13, tinha, entre seus membros, gente que se distinguia pela crueldade, gente do mais refinado trato, e gente que se comportava de um extremo ao outro. Por exemplo, em A Divina Comédia , Dante conta como Gianni Malatesta matou sua esposa Francesca da Rimini e seu irmão Paolo Malatesta. A propósito, Tchaikovski escreveu uma famosa fantasia sinfônica intitulada Francesca da Rimini. Mais tarde, Sigismond Malatesta, que protegia os humanistas e encorajava as artes, mata suas três primeiras mulheres antes de se casar com a amante.

Sexta-feira, 15, dei por encerrada minha participação no congresso, que não tinha nada de interessante programado para esse dia. Logo cedo parti para Ravena, aceitando a sugestão do Lívio, que ama os famosos mosaicos dessa bela cidadezinha.

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Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 5, 1998

Nessa viagem, meu primeiro destino era Rimini, Itália, para participar de um congresso. Minha agente de viagem organizou tudo, e decidiu que eu deveria ir até Madrid, tomar outro avião até Roma, e de lá partir de trem para Rimini, uma agradabilíssima estação de veraneio no mar Adriático. Logo descobri que minha agente tinha rateado. O melhor teria sido ir de Madrid para Bolonha, e de lá para Rimini.

No avião para Roma, dois padres, com batina preta, sentaram-se ao meu lado. Simpáticos, disseram-me que a melhor opção para ir do aeroporto até a stazione Termini (como eles chama a estação central) era de treno (não, não é trenó, é trem) de modo que programei meu consciente e meu inconsciente para pegar il primo treno que partisse do aeroporto. Às nove e meia aterrissamos em Roma, mas entre apanhar a bagagem, que demorou a aparecer na esteira, fazer um pipi e descobri onde se pega il treno para Termini, lá se foram uns bons noventa minutos. Enfrentar italiano que não fala inglês nem francês, é duro!

Depois de atravessar uns bons cento e cinqüenta metros, do hall do aeroporto até a plataforma do trem, fiquei desolado ao perceber que não havia viv’alma para dar informações. De repente apareceu um servente que me indicou a plataforma. Eu deveria, pelo que entendi, pegar o trem para Tiburtino e depois para Termini. Agora, só faltava comprar o bilhete. Como eu, havia um monte de ignorantes em volta das bigleterias automáticas. “Aperto esse botão?”, dizia um deles em espanhol. “Não, aquele outro!”, respondia alguém em inglês. Tudo agonia de viajante vexado, pois bastou um pouco de calma para descobrir como tudo aquilo funcionava.

Apertei o botão para Termini; a tela indicou a tarifa: treze mil liras (1 dólar equivalia aproximadamente a 1.560,00 liras); coloquei duas notas de dez mil liras, e a máquina soltou o bilhete e 14 moedas de 500 liras. Maravilha! Bilhete na mão, o problema era não pegar o trem errado. Às 23 horas, isso seria uma tragédia!

Também mais perdidos que ganso em festa de pato, havia uma família que falava espanhol. Naquele corre-corre, nem percebi quantos eram. Havia um homem, uma mulher que falava muito, perguntava, tomava iniciativa; outra mulher, mais calma, e duas ou três crianças. Um trem, não sei para onde, estava estacionado na plataforma; um italiano, aparentemente um funcionário, tentou nos explicar algo, mas não entendemos absolutamente nada! A essa altura, parte da família já havia subido no trem; ficamos eu e o chefe da família, brigando com nossas malas para passar na porta que já estava fechando.

Trem em movimento, todo mundo lá dentro sem saber como chegar em Termini. Abandonando as bagagens no corredor, mas com o olho atento, corre um pra cada lado para ver se encontra alguém que fale uma língua compreensível. No carro seguinte, encontrei um jovem e simpático casal que falava um sofrível, mas compreensível francês. Ufa, que alívio! Me explicaram tudo direitinho. Aquele trem não ia até Termini! Que boa notícia, pensei. Deveríamos saltar em Ostiense e pegar o metrô até a estação central.

Quando retornei ao carro onde se encontrava minha bagagem, percebi que parte da família tinha caminhado até o carro seguinte, deixando a mulher agitada para trás. Um pouco mais aliviado, ensopado de suor, perguntei se ela falava francês (me agrada mais do que o espanhol). Sim, falava. Descobri que era uma professora de paleontologia da Universidade do Chile, que estava vindo de um congresso na China.

– Por que o resto do pessoal foi para o outro carro?, perguntei.
– Não sei”, respondeu.
– Vocês não estão juntos?.
– Não, é uma família chilena que conheci no vôo Paris-Roma.

Ela estava indo para uma conferência em Siene, e pernoitaria num hotel que conhecia, próximo à estação Termini. Descemos em Ostiense, mas não vimos a família chilena. Ou se enganaram, ou tomaram outra informação. Quase meia-noite, e não aparecia viv’alma para nos orientar naqueles corredores subterrâneos. Caminhamos um pouco e encontramos dois policiais que nos aconselharam a pegar um táxi, porque com o nosso monte de bagagem, não ia ser fácil apanhar o metrô. O primeiro “táxi” que encontramos era um furgão, com espaço para a bagagem de um avião. Acertamos o preço até Termini: vinte mil liras, com direito a passar nas proximidades do Coliseu.

No Hotel Siracuse, bem em frente à estação Termini, um dos funcionários pensou que estávamos juntos e começou a preencher a ficha de um apartamento duplo, enquanto discutíamos os preços com outro funcionário. Engano desfeito, cada um pagou, adiantado, oitenta mil liras por um single-room com toilete.
Por volta do meio-dia peguei o trem Roma-Ancona, com conexão para Rimini em Falconara.

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Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 3, 1998
Fotos de Antônio do Vale

Aproveitando a deixa do artigo assinado pelo Rodrigues, quero dizer que tenho diversas e belas recordações do Cine Miramar e do Cine São Raimundo, principalmente porque, fazendo minhas as palavras da titia roqueira Rita Lee, “ No escurinho do cinema / chupando drops de anis / longe de qualquer problema / perto de um final feliz ”, era como nos sentíamos naqueles anos sessenta. Não lembro qual o primeiro filme que assisti. Certamente foi numa vesperal do Cine São Raimundo, pois em meados dos anos cinqüenta este era o único cinema em Areia Branca. O Cine Cel. Fausto, como cinema, é uma imagem difusa na minha mente. Não lembro de ter aí assistido filme. Lembro do prédio ainda inteiro, e com o passar dos anos acompanhei seu progressivo desmoronamento. No canto direito da foto à esquerda, um dos últimos registros do Cel. Fausto, pra variar, foto de Antônio do Vale.

Com a completa transformação do prédio do Cine São Raimundo, o Cine Miramar é o que resta de registro arquitetônico da sétima arte em Areia Branca. Na foto à esquerda, Antônio do Vale pretendia registrar uma enchente nos anos sessenta, mas captou, ao fundo (à direita) o antigo prédio do Cine São Raimundo.

Ao que me lembro, esses foram os únicos cinemas de Areia Branca. A propósito, quem lembra o primeiro filme projetado no Cine Miramar? Tenho a impressão que foi “Folhas Secas”. Terá sido isso mesmo? O Celso Luiz, que tem memória de elefante, bem que poderia tirar essa dúvida.

Estado lamentável do Cine Miramar, nos anos 1990

Logo após a inauguração do Cine Miramar (prédio de 2 andares), um colega nosso conseguiu roubar uma chave que abria a porta dos fundos, que ficava no beco da Galinha Morta (ah! Que memória horrorosa! Tenho dúvidas se estou falando do beco correto. Ocorreu-me que o beco da Galinha Morta poderia ser aquele que desembocava na “rua da Saudade”, em cuja esquina ficava a oficina de Reinério -saudades de Wellington!). Enfim, correto ou não o apelido do beco, o fato é que entrávamos com a maior tranqüilidade e assistíamos filmes e mais filmes gratuitamente. Não lembro exatamente como essa história terminou, mas sei bem que perdemos a chave. Creio que Clécio lembra disso. Perguntarei depois.

Outro dia acompanhei um debate num programa de rádio aqui em Porto Alegre , sobre o “escurinho do cinema”. Descobri que, tantos anos passados, tecnologia virtual, DVD, vídeo laser, liberdade sexual, camisinha (e uso de), nada disso foi capaz de acabar com a mística do namoro no cinema. Neste particular, o mezanino do Cine São Raimundo era imbatível. Todos sabíamos, para se ver um filme bem acompanhado no Cine São Raimundo, teríamos que sentar lá em cima, de preferência na última fila de cadeiras, ao lado do box onde ficava a câmara de projeção. Tinha-se que chegar bem cedo, para sentar na última cadeira do mezanino.

A propósito, lembro de uma história bem interessante. Lá pelos anos 60, dois amigos namoravam duas amigas. Costumavam ir juntos ao cinema. As meninas, muito assanhadas, insinuavam as possibilidades de carícias mais apimentadas. Chicletes rolavam de uma para outra boca, atingindo o clímax num incomensurável prazer. Aparentemente, o mais jovem dos meninos não tinha conhecimento dessa prática, corriqueira entre os mais velhos. Na saída do cinema o mais velho perguntou ao mais jovem:

– Sua namorada lhe deu um confeito?

– Deu, respondeu o mais jovem.

– O que você fez com ele?, perguntou o mais velho.

– Comi , respondeu o mais jovem, com a candura de um amante neófito.

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Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 12, 1998
Atualizada em 2 de maio de 2008

Há muito que venho alimentando a idéia de compilar fatos e boatos ocorridos ou ditos na Areia Branca dos anos sessenta. O plano tem sido discutido, aqui e acolá, numa ou noutra mesa de bar (ei, Flávio de Pitita, diga aí, não me deixe mentir sozinho, homem!). Agora, com a leitura dos livros de Zé Jaime e Wilson de Moisés a vontade de realizar o plano tornou-se obsessiva.

Em recente visita que fiz ao Mirabô, ouvi dele a promessa de participar ativamente do projeto, coletando depoimentos (orais e escritos) e escrevendo suas “memórias” daquela época (ei, Bobô, você prometeu escrever sobre as músicas que fizeram nossas cabeças; aquelas para serenatas e aquelas para o “rala-bucho”).

Para a nossa geração, a obra poderá servir como agradável e nostálgica volta aos felizes dias de adolescência e juventude. Mas, mais importante do que isso, o resgate de regras e comportamentos sociais proporcionará a montagem de um texto sociologicamente significativo. Por exemplo, na época em que as ruas de Areia Branca não eram calçadas (nem com paralelepípedo, nem com asfalto), os meninos costumavam praticar jogos hoje desaparecidos, tais como tica-bandeira (ou bandeirinha), fura-chão e pião, além das disputadíssimas partidas de futebol, acirrando as rivalidades entre os times da rua do meio e das ruas de trás. Certamente teremos histórias a contar sobre esses jogos. Como eram mesmo o nome e a regra daquele jogo de pião em que o vitorioso tinha o direito de bicar o pião do adversário? Recentemente, Evaldo Alves de Oliveira, hoje médico em Brasília, fez uma interessante contribuição, com seu livro Reaprendendo a Brincar: uma viagem à minha infância. Em breve deverei me ocupar dessas e outras publicações, mas a idéia aqui é provocar amigos e amigas de antanho.

Com a extraordinária fama da Canoa Quebrada de nossos dias, seria interessante que alguém relatasse como era vista essa praia nos anos sessenta. Ei, Altair o que é que você achava de Majorlândia? Conta pra gente! A propósito de praia, o que dizer das nossas caminhadas dominicais (alguma vezes com namoradas!), indo pela praia de Zé Filgueira, atravessando o Pontal e a Costa, para chegar em Upanema? Alguém tem uma história (fato ou boato) sobre os piqueniques escolares, aquele ingênuo lazer que passou a caracterizar os farofeiros de hoje? Quem lembra de Casca-de-ovo (o meu coração é só de Jesus / a minha alegria é o…)? Alguém lembra o último filme do Cine Coronel Fausto?

E o primeiro filme do Cine Miramar?

Qual o local preferido dos namorados no Cine São Raimundo?

A propósito de lembrança, uma pequena provocação ao Zé Jaime: homem, você esqueceu Dona Alice Carvalho, minha primeira professora, na Escola de Dona Chiquita do Carmo. Depois fui aluno da prof a Maria Felipe na 3a e 4a Série. Na 5a Série fui estudar com a prof a Geralda Cruz, cujo rigor disciplinar nos deixava arrepiados. Lembram daqueles tarugos de madeira, com formato triangular, que eram colocados sobre os papéis nas escrivaninhas? Pois certa vez a prof a Geralda Cruz arremessou o exemplar que estava sobre sua mesa, em direção às costas de um aluno malcriado, cujo gemido deve ter sido ouvido na rua.

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Texto escrito em 6 de abril de 2004
Fotos de Antônio do Vale

Areia Branca é como qualquer cidadezinha de qualquer parte do mundo. Com seus personagens típicos em quase tudo similares. Basta repassar a literatura e o cinema para verificarmos os pontos de contato comportamental entre sociedades tão diferentes. Minha referência neste assunto é o filme Amarcord, de Fellini. A Amarcord de Fellini está para Macatuba, a cidade imaginária de Tarcísio Gurgel, assim como Rimini está para Areia Branca.

Amarcord também tinha um farol, como o da praia de Upanema.

Em Amarcord os meninos sacanas incomodam o ceguinho que toca acordeon e roubam-lhe a bengala. Em Areia Branca a meninada traquina infernizava casca-de-ovo, um doidinho manso que adorava acompanhar procissão.


Em Amarcord os adolescentes masturbam-se em grupo, nos escombros de uma velha edificação. Em Areia Branca,… ah, se o Campo da Saudade falasse! Era este o nome do campo de futebol da cidade até o início dos anos setenta. Tinha esse nome porque era ao lado do cemitério.

Em Amarcord, Bischaine, o vendedor bobo-da-corte, mentia feito nosso Chico Pavão.

Recentemente revi Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone. Uma edição em DVD, com comentários, entrevistas e depoimentos de pessoas envolvidas com o filme ou profissionais de cinema. Bernardo Bertolucci confessa que sentia-se o próprio caubói, depois que assistia um filme com John Wayne. Também éramos assim em Areia Branca. Havia casos até mais curiosos: um amigo estava convencido de que era a encarnação salineira de Jean-Paul Belmondo.

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