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Archive for maio \01\-03:00 2008

O Bar Dia e Noite estava localizado na Rua João Pessoa, próximo à Rua Princesa Isabel. À tarde servia lanches para os adolescentes abastados, e à noite para a juventude namoradeira, igualmente abastada. Depois do namoro era costume ir até o Dia e Noite fazer um lanche para recuperar as energias perdidas no inocente jogo amoroso. Ficava à direita dessa foto , uns 50 metros a partir da esquina.

Nos finais de semana, a partir de sexta-feira, o bar fervia. Depois das festas nos clubes (ABC, América, Aero Clube, Assen, entre outros), era uma corrida para o Dia e Noite. Não raro, o teor etílico provocava pequenos bate-bocas, sururus e arranca-rabos. É verdade que às vezes o quiproquó era grande, com generalizada quebradeira de mesas. Principalmente quando estavam metidos aqueles irmãos com sobrenome italiano.

O garçom Gasolina era uma figura marcante no Dia e Noite. É personagem certa no folclore do bar. Tinha os bordões seguidamente repetidos por ele e pelos fregueses. Não sei quantas vezes ouvi um ou outro freguês exclamando em alto e bom som:

Gasolina, suspenda os ovos e passa a língua!

De vez em quando alguém perguntava:

Gasolina, terminou a casa?

A costumeira resposta negativa do garçom era seguida pela complementação do piadista – Ah, então continua levando vara?. A referência era antiquada, tratava-se da construção de uma casa de taipa.

As piadas eram batidas. Só a indulgência da felicidade justificava as repetidas gargalhadas.

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Em 1969, Joerton era nosso professor de matemática no 3o ano do científico noturno do Colégio Estadual do Atheneu Norteriograndense. Ah! o velho e glorioso Atheneu. Era um estudante de engenharia, um pouquinho mais velho que os mais novos da nossa turma. Freqüentávamos os mesmos ambientes da boemia. Depois da aula de 6a feira saíamos para a farra, geralmente para as festas do ABC, que ficava bem ali, na esquina da Afonso Pena com a Potengi, atrás do Atheneu.

Joerton exibia aquele ar desligado comum aos seres humanos de inteligência indiscutível. Fazia questão de deixar claro que não precisava preparar aula. Para ele, o improviso era a marca do intelecto superior. Tinha orgulho de tudo isso, mas do que mais se orgulhava era da sua capacidade de ingestão alcoólica. Conhecia todos os bares e botecos de Natal, mas seu local preferido era a A Palhoça. A Palhoça era assim, não necessitava do qualificativo Bar.

Toda 4a feira Joerton saía do Atheneu, seguia pela Potengi até a Av. Deodoro, dobrava à esquerda e caminhava cinco quadras até à Palhoça, que ficava ao lado do Cine Rio Grande e era propriedade do pai de Luíz Damasceno, o mais competente livreiro da capital potiguar. O nome Palhoça combinava com a arquitetura do estabelecimento, que consistia em vários cubículos, separados por paredes de palha, com chão de areia.

Nessa foto, a Palhoça é o pequeno prédio à esquerda.

Certa vez Joerton nos convidou para uma cervejada na Palhoça. Como de costume, não parava de contar histórias do folclore escolar. Naquele dia, a mais hilariante envolvia um famoso filhinho-de-papai, que era tão obtuso, quanto rico.

A cena ocorrera no cursinho pré-vestibular. O professor de matemática estava dando uma aula sobre análise combinatória. A certa altura, o garboso e obtuso mancebo, que se postava arrogantemente nas últimas cadeiras da sala, pergunta:

Professor, o que quer dizer esse sinal de exclamação depois do número 4?

Imediatamente, um atilado e irônico colega que se sentava bem na frente, vira-se e diz, em alto e bom som:

O sinal de exclamação está exclamando: Oh, menino, quanto és burro!

Como se sabe, em análise combinatória, o sinal de exclamação é utilizado para representar a operação fatorial, ou seja, fatorial de 4 é escrito assim: 4!

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No final de 1964, ou início de 1965, a imprensa natalense estampou um dos maiores escândalos que tenho conhecimento até hoje. A polícia havia invadido a boite Arapuca e descoberto que se tratava de um antro para orgias sexuais e consumo de drogas. Pelo que se comentava naquela época, a cocaína não era usada, a não ser em ambientes reservadíssimos. Maconha, lança-perfume e alguns psicotrópicos químicos, tipo perventim eram as drogas que nós, mortais caretas, sabíamos ser de uso freqüente. Dessas, a lança-perfume parecia ser a mais inocente. Por outro lado, a mistura de perventim com bebida alcoólica era altamente explosiva.

Quaisquer que fossem as conseqüências dessas drogas, não era isso que alimentava o imaginário popular. Eram as anunciadas orgias sexuais, e principalmente seus personagens, o que mais despertava o interesse do grande público. Surgiram vários boatos e lendas urbanas em torno de figuras importantes da sociedade natalense. Era aquele destacado empresário que diziam ser homossexual, ou aquela dama, mulher daquele milionário, que tinha um caso de amor com aquele outro, ou com aquela outra dama, e assim ia.

Um professor de português, cujo pai diziam ser homossexual, e que estaria na Arapuca no dia da batida policial, protagonizou uma cena hilariante numa das suas aulas.

O professor estava analisando ditados populares quando saiu-se com este:

Filho de peixe, peixinho é.

Fez cara de paisagem quando soou a gargalhada geral.

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