Não precisa muita sagacidade para perceber a hipocrisia que corre na veia do brasileiro. A mídia está aí para nos mostrar diariamente acusações, por parte dos formadores de opinião e do público em geral, da falta de honestidade e da corrupção dos políticos.
Todos esquecem que os políticos somos nós. Isso não é uma metáfora. Quero dizer que muitos dos que acusam os políticos, fariam o mesmo se lá estivessem. Muitos dos que acusam os políticos não têm o menor pudor em furar filas, dar e receber cola na escola, pedir para o guarda de trânsito relevar uma falta, ou tentar suborná-lo (depois, o corrupto é o guarda!).
Tudo isso estamos careca de saber. Mas, agora psicólogos americanos investigaram esse comportamento, que eles denominam hipocrisia moral. Denominação óbvia e correta. A notícia saiu no New York Times de hoje , e se refere a três artigos publicados em três diferentes revistas de psicologia.
- The duality of virtue: Deconstructing the moral hypocrite.” Piercarlo Valdesolo and David DeSteno . Journal of Experimental Social Psychology , in press.
- “Moral Hypocrisy: Social Groups and the Flexibility of Virtue.” Piercarlo Valdesolo and David DeSteno. Psychological Science, 2007.
- “Moral hypocrisy: Addressing some alternatives.” Batson, C. D., Thompson, E. R., & Chen, H. (2002). Journal of Personality and Social Psychology, 83, 330-339.
No estudo realizado na Universidade Nordeste (Northeastern University), o psicólogo David DeSteno e colaboradores (http://desteno.socialpsychology.org), observaram pessoas submetidas à seguinte situação:
A pessoa era informada de que ela e outra pessoa que chegaria mais tarde deveriam realizar uma tarefa em um computador. Eram duas tarefas diferentes. Uma bem simples, consistindo em selecionar fotos durante 10 minutos. A outra mais complexa e tediosa, um exercício sobre geometria mental, levava 45 minutos.
A pessoa tinha que decidir como dividir a tarefa: deixar que o computador distribua aleatoriamente as tarefas, ou escolher sua tarefa. Qualquer que fosse a opção, a pessoa era informada de que a outra pessoa não sabia que a decisão cabia a ela, a primeira pessoa.
A questão é: qual a forma justa de dividir as tarefas?
Quando a questão era colocada abstratamente a pessoas não envolvidas nas tarefas, todos respondiam que não seria justo escolher a tarefa mais simples.
Mas, quando os pesquisadores colocaram a situação para um grupo de teste, mais de 75% do grupo escolheu a tarefa mais simples. Quando posteriormente foram questionados eles consideraram que estavam agindo justamente.
Alguma semelhança com o que eu disse no início do texto? Isso também justifica porque uns são considerados patriotas, enquanto outros são terroristas. Uns são corruptos, enquanto outros simplesmente demonstram maestria no jeitinho brasileiro.

