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Archive for outubro \10\-03:00 2013

Do original Mirabeaux, passou para o levemente mais simples Mirabeau, até que Woden Madrugou cunhou o popular Mirabô. Os íntimos de fora de Areia Branca começaram a chama-lo Mira, mas para os areia-branquenses, ele sempre foi Bobô. Ultrapassando a metade da sua sexagésima década de vida, eis que este ilustre conterrâneo recebe uma homenagem digna da altura da sua contribuição musical. Saímos de Areia Branca e chegamos a Natal na mesma época, comecinho dos anos 1960 e por uma dessas incríveis coincidências, fomos morar em casas vizinhas, na travessa Paula Barros, cada um em casas de suas respectivas famílias. Acompanhei, passo a passo, seus primeiros dedilhados. Olhando aquelas tentativas titubeantes do autodidata, dó-re-mi . . . e repetido inúmeras vezes, dó-re-mi . . . até pensei que eu também poderia aprender a tocar violão. Seu primo Danúbio, de saudosa memória, também teve a mesma idéia. Mal imaginávamos que a força do DNA transformaria aquele simulacro de trio Iraquitã, em uma caminhada de sucesso de um homem só. O pai de Mirabô, “Seu” Mirabeaux, era músico, ofício aprendido com seu pai, avô de Bobô, das raízes dos Dantas de Caicó, de onde saiu Tonheca. Essa é uma parte da história que justifica a passagem daqueles dedilhados aparentemente hesitantes, para as músicas e letras cantadas por Fagner, Capinam, Lecy Brandão, Elba Ramalho, para ficar nas figuras populares do nosso cancioneiro.

carlosMirabeauNatAnos60Foto de quando eu já tinha desistido de dedilhar no violão, e Mirabô fazia pose de Jean-Paul Belmondo. Em frente ao Potengi, na altura da Paula Barros, ou para os saudosos de tempo de boemia, em frente ao Brisa del Mar (Foto de Evaldo Ribeiro).

Nos anos 1970  fui fazer meu curso de física na PUC-RJ e Mirabô foi espraiar seu talento nas ondas paulistanas e cariocas. Conheci Fagner, recém-chegado no Rio, no apartamento de Mirobô, ali perto da marina da Urca. No mesmo andar morava Afonsinho, então rebelde jogador do Botafogo. Fagner, meio-sentado, meio-deitado no sofá da sala, entoava uma canção de Roberto Carlos, com aquele seu trinado típico, que tanto sucesso fez. Mirabô se envolveu na política sindical dos artistas, chegou a cargos de direção do sindicato. Não sei quanto isso prejudicou sua carreira artística. Mas, se talento não se fabrica, também não se perde, e a entrega do Prêmio Hangar deste ano de 2013 é uma prova disso. Quem não conhecia Bobô teve uma pequena prova da sua criatividade, nos textos de apresentação e nas músicas apresentadas por ele e por vários artistas convidados.

Nos tempos idos dos anos 60, quando estava sofrendo por causa de uma das frequentes brigas com sua namorada de então, Mirabô costumava cantar uma canção que dizia algo assim: Hoje é noite / de ficar sozinho / de cantar baixinho / pra ninguém notar / (..) / noite triste assim como esta / não quero passar nunca mais / todo mundo olhando pra gente / pensando que a gente / não se ama mais (…)“.

Pois a noite desta terça-feira, 8 de outubro vai ficar para ele como a noite que cantaram alto sua obra, pra todo mundo notar, noite alegre assim como essa ele não esquecerá.

Desculpem o trocadilho e a rima de pé-quebrado. Descobri que não me afino nem com o dedilhar nas cordas do violão, nem com a construção de composição poética. Mas, sei reconhecer o valor dos meus semelhantes e ficar feliz com o sucesso de todos.

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