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Archive for fevereiro \22\-03:00 2016

O planejado para aquele dia era fotografar locais parisienses importantes para a Geração Perdida, ali no entorno do Jardim de Luxembourg. Já de saída uma grande dúvida. Partiríamos da estação do metrô Sèvres Babylone, pelo Boulevard Raspail até a rua de Fleurus ou da estação Odeon e seguiríamos para a rua de mesmo nome? A primeira alternativa nos levaria ao endereço onde Gertrude Stein, a autora da expressão “Geração Perdida”, viveu com Alice Toklas, de 1903 a 1938. Saindo da Odeon chegaríamos aos dois primeiros endereços da Livraria Shakespeare and Company. Ambas alternativas levariam à rua Vaugirard, nos anos 1920-1930 a mais badalada e bem habitada das ruas que tangenciam o Jardim de Luxembourg, garante Sérgio Augusto, autor de “E foram todos para Paris”.

Decidimos saltar na Sèvres Babylone e escolher o roteiro tomando um cappuccino no aconchegante Bar de la Croix Rouge, na rua de Sèvres. Foi ali que grudei os olhos numa página do Lonely Planet de Paris. Era sobre o Quartier Latin e dizia que não havia lugar melhor para sentir, cheirar e provar aquela região do que a rua Mouffetard. Sua feira a céu aberto, suas lojas de vinho e suas cafeterias formam um cenário mágico, depreendi da leitura. Imediatamente resolvemos mudar o roteiro.

O mapa do guia Le Petit Parisien indicava um bom percurso: seguir pelo Boulevard Saint Germain e entrar à direita no Saint Michel. Ali na esquina, para não sucumbir à tentação de ir até à Vaugirard e enveredar pelo Jardim de Luxembourg, dizia meu cérebro bem programado: feche os olhos, siga o Saint Michel e jamais dobre à direita, sempre à esquerda. Não, isso não é uma metáfora política, é apenas uma orientação geográfica. Para qualquer visitante ocasional aquele percurso tem uma caixinha de surpresa atrás de outra. A primeira surpresa foi quando demos de cara com a Place de la Sorbonne, na frente de um belo prédio. Turistas fotografando, guia explicando, provavelmente que aquele era um dos prédios mais antigos da Sorbonne, mas, nem a guia, nem qualquer membro daquele grupo colocou os olhos num busto que estava à esquerda da praça. Era Auguste Comte, o pai do positivismo. Logo lembrei do prof. Hélgio Trindade, grande conhecedor da vida e obra do precursor da sociologia.

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Logo depois da praça da Sorbonne, a passos largos entramos à esquerda na rua Cujas, no rumo da Mouffetard. Mas, logo no cruzamento da Cujas com a Saint Jacques, um prédio sem qualquer atrativo arquitetônico chama a atenção pela inscrição no alto da sua fachada: Universites Paris I Paris II Centre Pantheon. Ops, para um visitante em busca da Geração Perdida, aquela inscrição era um sinal de alerta, logo materializado quando, alguns passos adiante, avistamos o imponente prédio do Pantheon, depositário de marcos históricos da cultura francesa. À esquerda de quem olha a frente do prédio, a majestosa biblioteca Sainte Genevieve, com seus mais de dois milhões de documentos catalogados. Com muita energia resistimos à tentação de ali entrar e jogar olhares furtivos ou profundos sobre suas históricas prateleiras. Fotografamos tudo no entorno, da fachada às placas de rua.

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Pantheon

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Biblioteca Sainte Genevieve

Para não perder os últimos raios de luz daquele agradável dia parisiense e fotografar o mercado da Mouffetard, de novo rumamos a passos largos para a rua Clovis e tivemos que parar. À nossa direita, o Lycée Henri IV. Agora, me responda, é possível passar na frente desse monumento da educação francesa sem parar, nem que seja para um breve extasiamento (eu sei, a palavra não existe nem eu sou Guimarães Rosa)? Fiz mais do que isso, cliquei de todos os ângulos. Comovido, fotografei a placa à memória das crianças judias que, com a cumplicidade do Governo de Vichy, dali foram enviadas para a morte em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

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O cair da tarde em rápida progressão não nos impediu de registrar a maravilhosa rua Mouffetard, mas, isso já é outra história.

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Um texto quase impenetrável em homenagem às introduções de Umberto Eco.
Não é apenas uma metáfora referente à diferença de tratamento que se dá a um apartamento em Paris e um triplex no Guarujá. São fatos da realidade em laboratórios de pesquisa que escancara a hipocrisia dos tempos atuais, quando a conexão entre ciência e política se faz presente. Estou revendo a biografia de Robert Andrews Millikan para um livro que estou organizando sobre a luz e suas tecnologias. Sobre uma parte dessa biografia escrevi um artigo para a RBEF em 1995 (http://www.sbfisica.org.br/rbef/pdf/vol17a10.pdf). Millikan é acusado de “cozinhar” seus dados experimentais para favorecer a teoria que defendia. No experimento clássico sobre a carga do elétron, ele observou 175 gotas de óleo, mas só apresentou os resultados de 58, justamente as que estavam de acordo com a sua hipótese, e escondeu as outras que podiam concordar com a hipótese de Ehrenhaft. Existem outros casos na história da ciência, incluindo aí os dados do eclipse solar de 1919, que comprovou a teoria da relatividade geral. Pergunto a quem já trabalhou com experimentos científicos, não importa a área, se alguma vez seus dados não foram “cozinhados” e seus espectros não foram penteados. Pentear espectros é excluir pontos que estão muito fora da curva. Existe até um programa de computador para fazer isso. Quando o espectro tem os pontos muito dispersos, e fica muito “feio”, limpa-se o espectro pegando sequencialmente 3 pontos, fazendo-se a média das medidas e substituindo o ponto do meio pela média. Resulta um espectro limpíssimo. Isso não tem qualquer problema, quando o efeito observado em uma curva experimental é muito destacado, e os pontos fora da curva resultam apenas de flutuações, até mesmo na voltagem da rede. Mas, isso pode chegar a fraudes sérias. Então, onde estão os limites da ética? Existe diferença entre dar cesta básica nos dias que antecedem as eleições, e dar cesta básica de forma institucional? Ambas as práticas podem ser classificadas como populistas, mas atendem a interesses ideológicos bem distintos. É daí que sai a diferença de tratamento dado ao apartamento da Avenue Foch e ao triplex do Guarujá.

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