O planejado para aquele dia era fotografar locais parisienses importantes para a Geração Perdida, ali no entorno do Jardim de Luxembourg. Já de saída uma grande dúvida. Partiríamos da estação do metrô Sèvres Babylone, pelo Boulevard Raspail até a rua de Fleurus ou da estação Odeon e seguiríamos para a rua de mesmo nome? A primeira alternativa nos levaria ao endereço onde Gertrude Stein, a autora da expressão “Geração Perdida”, viveu com Alice Toklas, de 1903 a 1938. Saindo da Odeon chegaríamos aos dois primeiros endereços da Livraria Shakespeare and Company. Ambas alternativas levariam à rua Vaugirard, nos anos 1920-1930 a mais badalada e bem habitada das ruas que tangenciam o Jardim de Luxembourg, garante Sérgio Augusto, autor de “E foram todos para Paris”.
Decidimos saltar na Sèvres Babylone e escolher o roteiro tomando um cappuccino no aconchegante Bar de la Croix Rouge, na rua de Sèvres. Foi ali que grudei os olhos numa página do Lonely Planet de Paris. Era sobre o Quartier Latin e dizia que não havia lugar melhor para sentir, cheirar e provar aquela região do que a rua Mouffetard. Sua feira a céu aberto, suas lojas de vinho e suas cafeterias formam um cenário mágico, depreendi da leitura. Imediatamente resolvemos mudar o roteiro.
O mapa do guia Le Petit Parisien indicava um bom percurso: seguir pelo Boulevard Saint Germain e entrar à direita no Saint Michel. Ali na esquina, para não sucumbir à tentação de ir até à Vaugirard e enveredar pelo Jardim de Luxembourg, dizia meu cérebro bem programado: feche os olhos, siga o Saint Michel e jamais dobre à direita, sempre à esquerda. Não, isso não é uma metáfora política, é apenas uma orientação geográfica. Para qualquer visitante ocasional aquele percurso tem uma caixinha de surpresa atrás de outra. A primeira surpresa foi quando demos de cara com a Place de la Sorbonne, na frente de um belo prédio. Turistas fotografando, guia explicando, provavelmente que aquele era um dos prédios mais antigos da Sorbonne, mas, nem a guia, nem qualquer membro daquele grupo colocou os olhos num busto que estava à esquerda da praça. Era Auguste Comte, o pai do positivismo. Logo lembrei do prof. Hélgio Trindade, grande conhecedor da vida e obra do precursor da sociologia.


Logo depois da praça da Sorbonne, a passos largos entramos à esquerda na rua Cujas, no rumo da Mouffetard. Mas, logo no cruzamento da Cujas com a Saint Jacques, um prédio sem qualquer atrativo arquitetônico chama a atenção pela inscrição no alto da sua fachada: Universites Paris I Paris II Centre Pantheon. Ops, para um visitante em busca da Geração Perdida, aquela inscrição era um sinal de alerta, logo materializado quando, alguns passos adiante, avistamos o imponente prédio do Pantheon, depositário de marcos históricos da cultura francesa. À esquerda de quem olha a frente do prédio, a majestosa biblioteca Sainte Genevieve, com seus mais de dois milhões de documentos catalogados. Com muita energia resistimos à tentação de ali entrar e jogar olhares furtivos ou profundos sobre suas históricas prateleiras. Fotografamos tudo no entorno, da fachada às placas de rua.

Pantheon

Biblioteca Sainte Genevieve
Para não perder os últimos raios de luz daquele agradável dia parisiense e fotografar o mercado da Mouffetard, de novo rumamos a passos largos para a rua Clovis e tivemos que parar. À nossa direita, o Lycée Henri IV. Agora, me responda, é possível passar na frente desse monumento da educação francesa sem parar, nem que seja para um breve extasiamento (eu sei, a palavra não existe nem eu sou Guimarães Rosa)? Fiz mais do que isso, cliquei de todos os ângulos. Comovido, fotografei a placa à memória das crianças judias que, com a cumplicidade do Governo de Vichy, dali foram enviadas para a morte em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.


O cair da tarde em rápida progressão não nos impediu de registrar a maravilhosa rua Mouffetard, mas, isso já é outra história.



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