Feeds:
Posts
Comentários

Archive for 19 de junho de 2016

Nos vários ramos das ciências da natureza, cientistas utilizam estratégias reducionistas para aprofundar seus estudos. Fazem aproximações, descartando ou minimizando aspectos complicados, bem como aspectos comuns a todos os fenômenos relacionados. Ocupam-se prioritariamente de aspectos que diferenciam os vários fenômenos de determinada área. Esse tipo de estratégia economiza tempo e possibilita agilidade na busca de soluções. Dado o atual cenário da política brasileira, de conhecimento de todos que militam na área e de cientistas e estudiosos da ciência política, mas agora evidenciado para toda a sociedade pela operação lava jato, chegamos a um evidente impasse. Como está implícito na frase anterior, impasse há muito previsto pelos atores e estudiosos da cena política brasileira. Não se governa no Brasil sem chafurdar nos esgotos da corrupção. Pode-se até fazer política sem sujar as mãos, mas quem assim o faz, e eu conheço alguns políticos que assim procedem, não chega a ter êxito prolongado em cargos executivos.

O impasse atual vem do financiamento das campanhas eleitorais, que coloca na vala comum recursos limpos e recursos fraudulentos. Política, como se dizia antigamente, tem que ser feita no GOGÓ. É no discurso que o político deve convencer a comunidade do valor de seus ideais. Uma campanha eleitoral não deveria ser ofertada como se oferta um produto de beleza. Essa é uma questão ampla e complexa que não pode ser continuada aqui, porque fugiríamos do propósito inicial do artigo.

Afinal, qual é o impasse? O impasse é que, salvo os pequenos partidos de esquerda, sobretudo PSOL e PSTU, todos os outros estão, em menor ou maior grau, atolados nesse mar de lama da corrupção que veio à tona pela lava jato. O quê fazer? Prender todos os envolvidos? De onde sairão os novos ocupantes de cargos legislativos e executivos? Porque é disso que se trata neste momento. Se fizermos tábula rasa de nosso cenário político, não sobra um para contar a história. Pequenos exageros à parte, em função das exceções supra mencionadas, essa é a realidade.

Se juiz fosse, envolvido com este imbróglio, proporia o mecanismo reducionista da ciência. E faço esta sugestão sem qualquer parti pris, apenas obedecendo preceitos da lógica cartesiana. Ou seja, não sei, salvo os casos divulgados pela imprensa, que partidos ou políticos seriam prejudicados.

O mecanismo reducionista que proponho exige uma relativização dos casos de corrupção, uma espécie de categorização, ou como se diz na ciência, uma taxionomia da corrupção política. A expressão é bonita, mas o que está por trás é muito feio. Existem claramente três categorias (o verbo ROUBAR é usado aqui para representar genericamente atos de corrupção. Não se refere necessariamente a um roubo explícito. Pode significar, por exemplo, o pagamento de materiais de propaganda eleitoral em troca de um benefício legislativo, como uma lei que favoreça determinado segmento empresarial):

  1. O político permite que seus aliados roubem para obter maioria nas casas legislativas;
  2. O político rouba para alimentar suas estratégias de propaganda eleitoral;
  3. O político rouba para seu enriquecimento.

A categoria (1) tem duas nuanças. A maioria legislativa pode ser usada para a aprovação de políticas públicas de inclusão social (bolsa família, minha casa minha vida, etc), ou para o benefício do capital (flexibilização das leis trabalhistas, etc). As duas alternativas fazem parte do jogo político, da luta ideológica, é a essência da disputa eleitoral. É a razão da vida civilizada.

A categoria (2) é apenas o desvirtuamento da categoria (1).

O problema ético mais sério e socialmente perverso é o representado pela categoria (3). O político enquadrado nesta categoria não está interessado em beneficiar a sociedade. É para o seu proveito que ele mergulha nos esgotos da corrupção. O mecanismo de salvaguarda mais comum utilizado por esta categoria é a transferência de recursos financeiros para os paraísos fiscais.

Então, fica evidente que se tivermos que punir sem destruir todo o sistema, teremos que concentrar a punição naqueles políticos que mantêm contas secretas no exterior.

Para usar o estilo da suprema corte, finalizo dizendo:

Este é o meu parecer, com a data venia de intelectuais e puristas da ciência política. Sem as devidas citações a Charles Montesquieu, Jean-Jacques Rosseau, John Locke e Adam Smith, fico com a tosca reflexão nascida de minha vivência e simplista intuição.

Read Full Post »