Jantar na casa de Antonio José, para reencontro com Beque, que há meio século navegava fora da minha rota de contato. Presente Mirabô, outro viajante escorregadio com quem de tempos em tempos chego a tropeçar. Me juntando a Beque e Antônio José, a conversa tinha que passar pelo campo da saudade e pela quadra de futebol de salão, mesmo com a presença de Mirabô, que afinadíssimo nas cordas de violão, jamais chegou mesmo a tropeçar com uma bola entre os pés. A conversa tomou o rumo certo quando descobri que o genro de Beque é filho de Lourinho, portanto primo de Chico Carlos. No campo da saudade Lourinho foi rei, imperador e semi-deus, entidades incoporadas por Chico Carlos na quadra de futebol de salão. Joguei futebol de salão com os dois e participei de incontáveis peladas no campo da saudade com Chico Carlos.
O campo da saudade não era gramado. O solo era uma areia salitrosa, com buracos e cocurutos que só aos gênios era permitido correr com a bola plenamente dominada. Ninguém flutuava sobre aquele terreno com maestria e saudável picardia igual a Lourinho. Certa vez relatei no blog Era uma vez em Areia Branca, uma cena que presenciei num certo domingo de 1960. Face o evento de ontem, torna-se obrigatória sua repetição.
Não lembro o time pelo qual ele jogava, e muito menos o adversário. Mas, a jogada, que jogada, está ainda hoje nítida na minha memória. Parece que estou me vendo de pé na lateral do campo, na altura da meia-cancha adversária. Lourinho atacava pela ponta esquerda, a cinco metros de onde eu estava, quando alguém deu um balão em sua direção. Foi um alvoroço naquela zona do campo. Os defensores, uns dois ou três correram para o local, olhando para cima e se encandeando, enquanto a bola descia. Lourinho ali, parado, olhando com calma a trajetória da bola. Quando ela aproximava-se do chão, deu dois ou três passos para trás. A bola quicou em algum buraco do terreno, encobriu os defensores e foi cair mansa no seu peito. Depois do primoroso lançamento para a pequena área, seu centro-avante, que não lembro quem era, cumpriu a tarefa do seu métier com um gol antológico.
(ver a crônica completa em https://areiabranca.wordpress.com/2009/02/07/lourinho/).
Lourinho é o quarto de pé, a partir da esquerda.



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