Memórias: Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza
fevereiro 14, 2017 por Prof. Carlos Alberto
Pela gratidão que, como leitor passo a ter pela publicação desse primoroso registro histórico, reverencio solenemente seus organizadores: Geraldo Queiroz, Nicolau Frederico, Rejane Lordão e Tarcísio Gurgel.
Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la mais de uma vez. A primeira como tragédia e a segunda como farsa. Alguém já falou algo semelhante? Parece que sim! Nos tempos que correm, Karl Marx continua atualíssimo, e esta obra reflete esta dolorosa atualidade nos conduzindo para os idos anos 60-70, parte de uma trágica realidade que não queremos ver repetida como farsa.
Para além do seu indiscutível valor histórico, esta obra nos encanta pelo aspecto visual, pelo seu maravilhoso projeto gráfico. Os amantes da boa culinária costumam dizer que a degustação começa pela vista e pelo olfato. É também pela vista que um amante do livro começa a se embevecer por uma publicação.
A segunda capa com fac-símile de alguns jornais da época, entre os quais apenas a Tribuna do Norte subsiste.
Essa montagem para a abertura da seção iconográfica
é uma obra de arte.
Veja a singeleza dessa página que separa os textos do livro.

Esta é a abertura da seção de correspondências, com reprodução de cartas enviadas por Millôr Fernandes, Dailor Varela, Homero de Oliveira, Talvani Guedes, Celso da Silveira, Salomão David Amorim e Gildson Oliveira. Contém também o primeiro manifesto de alunos e professores da Faculdade Eloy de Souza visando sua integração à UFRN.

Página de abertura da seção Nos Caminhos da História, que contém dois textos. O primeiro, de Geraldo dos Santos Queiroz,
Percursos de uma escola pioneira, nos remete, de forma precisa, mais do que à história da Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza, ao cenário social dos anos 60. Cenário social, bem entendido, compreende todos os aspectos da urbe potiguar. Da campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, às arbitrariedades de um regime militar que se iniciava e que perduraria por mais de duas décadas.
O segundo texto é de Luiz Jorge de Azevedo Lobo, o primeiro diretor da faculdade. Um relato conciso e denso da história do jornalismo nos mostra como as ideias nas grandes metrópoles inspiraram a trajetória inicial da formação de profissionais da comunicação no Rio Grande do Norte.
Para encerrar essa singela homenagem que presto aos organizadores e colaboradores da obra, transcrevo trechos de A Faculdade da Memória, instrutivo texto de Tarcísio Gurgel que subscreveria em qualquer circunstância.
Num país tão alheio à sua própria memória […] é, por certo, digna de louvores a iniciativa de recuperar […] acontecidos de uma experiência didático-pedagógica verdadeiramente extraordinária ocorrida na capital do Rio Grande do Norte nos anos sessenta, início dos setenta do século passado.
Não por mera coincidência, ela surge em plena década de sessenta – nau em que nos tornamos passageiros de uma viagem excitante […]. Tempos da exortação maneiríssima “paz e amor”. Tempos das primeiras conquistas espaciais, dos Beatles, da inaugração de Brasília. Tempos da batida sincopada do violão de João Gilberto, das imagens impressionantes do Cinema Novo e do entusiasmo dos festivais de música. Mas, sobretudo, tempo de acompanhar a campanha que resultou na último grande investimento utópico conquistado pelas armas: a revolução cubana.
[…] mantínhamos nossa convicção de negar as sisudas propostas ditatoriais que, copiando slogans imperialistas, recomendavam que deixássemos o pais. Como deixar o país, se o amávamos a ponto de alguns de nós até morrerem por ele?
[…] saio das páginas deste livro surgido da iniciativa de Geraldo Queiroz e a ele voltarei certamente muitas vezes mais para reavivar a emoção.
Não poderia encerrar esse texto sem essa encantadora declaração de Tarcísio, confissão de seu desejo de se manter no ritmo da emoção de uma vida dedicada à cultura, ao mesmo tempo em que presta a devida homenagem ao idealizador da obra, Geraldo Queiroz.
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