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Archive for the ‘cinemas’ Category

Crônica publicada no jornal Prieira Mão

Ano II, n. 6, 1998

Durante toda minha juventude areia-branquense presenciei e ouvi histórias do mais fino humor, algumas antológicas. Entre tantos personagens, quase-mitos, desse nosso acervo humorístico, destacarei o Zé, filho de Antônio Noronha, para contar uma história pouco conhecida. Jamais fiquei sabendo quem o apelidou de Zé Moconha, nem a verdadeira motivação do apelido. Dizem que era por causa de um tipo de cigarro que ele apreciava, mas não sei se isso é verdade. O que é verdade é que o dito cujo era um poço de estripulias. Quando bebia, e isso não era raro, Zé Moconha aprontava; às vezes com o mais surpreendente e refinado bom-humor; às vezes com a mais brutal violência. Quando extrapolava, a polícia intervinha, com a condescendência que se deve ter com um inocente travesso. Certa vez, bêbado como só ele sabia ficar, montou um cavalo e resolveu dar voltas na praça da Matriz, galopar pela rua do Meio e entrar no Cine Miramar. Quando finalmente o delegado de polícia conseguiu interpelá-lo, foi logo justificando:

– Zé, você vai ficar preso porque tentou entrar no cinema e andou a cavalo sobre a praça.
– Pela entrada no cinema o senhor pode me prender, mas pelo passeio na praça eu não mereço. A volta que eu dei num sentido, foi desfeita quando eu dei a volta no sentido contrário.

Quando sóbrio, era a doçura em pessoa. Minha mãe e minhas tias nunca acreditaram que o Zé fosse capaz de fazer aquelas coisas que diziam. Embora ligado por laços familiares, nunca tive uma grande aproximação com Zé Moconha, talvez por causa da diferença de idade. Contaram-me que quando eu era criança (por volta dos 4 ou 5 anos), Zé Moconha e amigos, incluindo o Cônego Ismar, costumavam divertir-se com minhas imitações (dizem que minha imitação do João de Quidoca era engraçadíssima).

Bem no início dos anos sessenta, antes de Antônio Noronha sair de Areia Branca, Zé Moconha foi a Natal e hospedou-se na casa dos meus avós, com os quais eu morava durante o período escolar. Aproveitamos um domingo e fomos visitar uma exposição agropecuária em Parnamirim. Não consigo lembrar como lá chegamos, e não consigo esquecer como de lá saímos.

O Zé começou a tomar umas e outras; coquetéis diversos. Divertia-se à vontade. Quando o dia foi escurecendo, eu, nos meus 12 anos, comecei a ficar preocupado quanto ao retorno. Zé Moconha não tava nem aí. “De algum jeito a gente sai daqui!” Dizia na maior tranqüilidade. Finalmente, ele consumiu o último centavo de daiquiri.

– E agora, Zé?
– Vam’bora!

Eu ainda estava tentando imaginar como aquele “Vam’bora!” ia se transformar em realidade, quando percebemos um monte de gente subindo num caminhão. Iam até a Igreja São Pedro, no Alecrim. Subimos e ficamos encostados na grade, no final da carroceria. Lembro que o Zé perguntou o preço da passagem, mas eu não estava preocupado com o valor; qualquer que fosse, não tínhamos um tostão para pagá-la. Eu não imaginava como, mas confiava que Zé Moconha haveria de encontrar uma solução para pagar nossas passagens. Em plena viagem, alguém inicia a cobrança lá na outra ponta da carroceria. Imediatamente Zé Moconha começa também a cobrar as passagens, a partir da traseira do caminhão. Mais ou menos no meio da carroceria, os cobradores (o verdadeiro e o falso) encontram-se, e o Zé, na mais cândida inocência diz:

– Pronto, daqui para trás tá tudo pago!

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Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 2, 1998

Quisera fosse o contrário: lembrar muito, e com cristalina nitidez. O sujeito sai do seu rincão e se larga pelo mundo afora, conhece gente, vida nova, vai trocando a casca, abandonando as raízes. Quando pára, descobre, com tristeza, que a memória é curta e turva. Alguns registros permanecem intactos, mas outros parecem uma nuvem mal-definida. Não esqueço os comícios e as passeatas de Manoel Avelino, ao som de(…) enquanto a minha vaquinha / tiver o couro e o osso / e puder com o chocalho / pendurado no pescoço / (…) / só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara (…).

Quando a bossa nova encaminhava-se para o sucesso, um trio (como se chamava?) embalava nossas festas em Areia Branca. Mirabô, Maninho e, se não me falha a memória, Zé Amorim; é isso mesmo? Lembro que o Mirabô gostava muito de cantar “chove chuva / chove sem parar (…)“, de Jorge Bem, mas não lembro das canções prediletas do trio. O que eu lembro é que a bossa nova nos alimentava de músicas para curtir ou para dançar agarradinho, mas o que agitava mesmo a tchurma, era o twist e, logo depois, o iê-iê-iê. Alguns se achavam tão bons dançarinos de twist, que resolveram cobrar por apresentações. A efêmera companhia de dança apresentou um único show, em Grossos. Eram duplas, apenas de rapazes – as meninas não tinham suficiente cara-de-pau! Não lembro nem quantas duplas tínhamos, nem os nomes das mesmas.

E as serenatas com radiola portátil? Como éramos ridículos! Éramos, vírgula, porque quando Mirabô & Cia resolvia fazer serenata, a história era outra! Não esqueço “Hoje é noite / de ficar sozinho / de cantar baixinho / pra ninguém notar / (..) / noite triste assim como esta / não quero passar nunca mais / todo mundo olhando pra gente / pensando que a gente / não se ama mais (…)“. Se não era bem essa a letra, é porque a memória é curta e turva.

Para dançar, rostinho colado, no centro do salão, nada comparava-se a “a taste of honey“, estranhos ao luar” (é esse mesmo o nome?), “tender is the night“, a irresistível “the shadow of your smile“, ao som da qual muitas juras e promessas de amor eterno devem ter sido feitas.

Quem esquece “capri c’est fini“, Mamas and the Papas com “sunday will never be the same” (não havia uma versão dessa música?), o grande sucesso “monday, monday” e a inesquecível “califórnia dreamin“? E Nat King Cole com “Mona Lisa“, Paul Anka com “you are my destiny“, (tocava muito no Cine São Raimundo e no Cine Miramar, antes das sessões). Também eram muito executadas, “Malaguenha” e “Granada“.


Antônio do Vale queria registrar uma enchente na Areia Branca dos anos 60, mas captou ao fundo, o Cine São Raimundo. À direita, o prédio original do Cine Miramar.

Mais tarde, já na década de 70, “Marie jolie” embalou corações e mentes de jovens apaixonados. Na sessão dor-de-cotovelo, biriteiros e mal-amados não podiam deixar de lado “negue“, “a volta do boêmio“, “risque“, “sentimental demais” e “brigas” (as duas últimas com o seresteirão Altemar Dutra).

Não pensem que de um parágrafo para o outro minha memória ficou prodigiosa. É que compro tudo que é gravação de música que fez minha cabeça na adolescência e juventude. Depois eu conto como em Paris eu fiz uma vendedora achar uma gravação de “Marie Jolie“. Agora, eu quero é ver o Mirabô aceitar a provocação e, qual uma batalha de repentistas, tomar o mote e fazer as correções que este arremedo de apontamentos históricos merece.

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Em 1969, Joerton era nosso professor de matemática no 3o ano do científico noturno do Colégio Estadual do Atheneu Norteriograndense. Ah! o velho e glorioso Atheneu. Era um estudante de engenharia, um pouquinho mais velho que os mais novos da nossa turma. Freqüentávamos os mesmos ambientes da boemia. Depois da aula de 6a feira saíamos para a farra, geralmente para as festas do ABC, que ficava bem ali, na esquina da Afonso Pena com a Potengi, atrás do Atheneu.

Joerton exibia aquele ar desligado comum aos seres humanos de inteligência indiscutível. Fazia questão de deixar claro que não precisava preparar aula. Para ele, o improviso era a marca do intelecto superior. Tinha orgulho de tudo isso, mas do que mais se orgulhava era da sua capacidade de ingestão alcoólica. Conhecia todos os bares e botecos de Natal, mas seu local preferido era a A Palhoça. A Palhoça era assim, não necessitava do qualificativo Bar.

Toda 4a feira Joerton saía do Atheneu, seguia pela Potengi até a Av. Deodoro, dobrava à esquerda e caminhava cinco quadras até à Palhoça, que ficava ao lado do Cine Rio Grande e era propriedade do pai de Luíz Damasceno, o mais competente livreiro da capital potiguar. O nome Palhoça combinava com a arquitetura do estabelecimento, que consistia em vários cubículos, separados por paredes de palha, com chão de areia.

Nessa foto, a Palhoça é o pequeno prédio à esquerda.

Certa vez Joerton nos convidou para uma cervejada na Palhoça. Como de costume, não parava de contar histórias do folclore escolar. Naquele dia, a mais hilariante envolvia um famoso filhinho-de-papai, que era tão obtuso, quanto rico.

A cena ocorrera no cursinho pré-vestibular. O professor de matemática estava dando uma aula sobre análise combinatória. A certa altura, o garboso e obtuso mancebo, que se postava arrogantemente nas últimas cadeiras da sala, pergunta:

Professor, o que quer dizer esse sinal de exclamação depois do número 4?

Imediatamente, um atilado e irônico colega que se sentava bem na frente, vira-se e diz, em alto e bom som:

O sinal de exclamação está exclamando: Oh, menino, quanto és burro!

Como se sabe, em análise combinatória, o sinal de exclamação é utilizado para representar a operação fatorial, ou seja, fatorial de 4 é escrito assim: 4!

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