Objetos de Aprendizagem

Texto Contra 03

© 2007, C. A. dos Santos


O teceiro texto contra também foi extraído do blog de Marcos Telles, e encontra-se neste endereço

Learning Objects: porque não deram certo

Veja o início do artigo.

Na postagem anterior, falei de um estudo da União Européia que mostra que, na prática, a idéia de learning-objects não funciona. Nesta postagem, vamos ver que essa não é uma constatação isolada.

Na literatura corrente, uma das definições mais citadas é aquela do IEEE segundo a qual learning-object é qualquer entidade, digital ou não-digital, que possa ser usada, reusada ou referenciada num processo de aprendizagem com apoio de tecnologia [inclusive pessoas, organizações e eventos]. Nessa linha, learning-object  seria outra palavra para “tudo”, já que tudo pode ser usado, reusado ou referenciado num processo de aprendizagem. Um repositório de learning-objects seria um imenso depósito ou lista de tudo, abrangendo o conteúdo de bibliotecas, hemerotecas, discotecas, filmotecas, mapotecas, power-points, simuladores, fotos, músicas,  ilustrações em flash, pessoas e tudo mais que alguém conseguisse ligar a um processo de aprendizagem.

Veja os comentários.

  1. Fernando Cardoso Says:Agosto 8th, 2007 at 5:39 pm MarcosAcredito que gostarmos de um texto, não precisamos necessariamente concordar com ele.Vejo que você definiu objetos de aprendizado como ninguém, só que pela negativa. Está ótimo seu texto.

    Acho que a polêmica é a melhor forma de possibilitar a reflexão.

    Fernando

  2. Cesar Nunes Says:Agosto 9th, 2007 at 2:35 am Neste momento estou no Canadá, participando de um evento sobre Knowledge Building promovido por Marlene Scardamalia e Carl Bereiter, dois grandes papas em aprendizagem e tecnologia. Segundo ele, em contraponto à maneira como a escola tradicional nos ensinava: o que é importante não é o nome que damos às coisas e se concordamos ou não com as definições, mas sim o que podemos fazer com as coisas e quais as limitações que temos por fazer ou definir desta ou daquela maneira!Acredito que o Marcos escreva dessa maneira para provocar reações e controvérsias. Acho que o assunto pode sim levar a uma discussão interessante, mas talvez não nesse tom: “Por que não chamar um simulador de simulador, um power-point de power-point e uma ilustração em flash de ilustração em flash?” Seguindo só um pouco esse tom, no mundo real chamamos banana de banana e cadeira de cadeira e mesmo assim existe a palavra “objeto”. Segundo o Marcos isso seria um problema pois a mesma palavra seria usada para representar coisas muito distintas. Então, por que precisamos da palavra “objeto”? Porque às vezes ela é necessária. Imagine-se transportando todos os objetos de um cômodo para outro. Da mesma maneira, às vezes queremos transportar vários “conteúdos digitais” de um lado para outro ou reunir-los num lugar onde possamos garantir que estejam sempre acessíveis. Por isso precisamos de uma palavra. A que tem sido mais utilizada é “objeto de aprendizagem”. O que está entrando na moda, importante de novo por provocar muitas reflexões, é “Open Educational Resources”. O Marcos sugeriu chamar de conteúdo digital.Será que essa ênfase em conteúdo não é negativa (não vou entrar na discussão conteúdos X competências)? Um jogo desenvolvido com o intuito de auxiliar uma maior conscientização do usuário sobre suas próprias estratégias de pensamento durante processos de resolução de problemas deveria ser chamado de “conteúdo digital”? Eu desenvolvi e sinceramente prefiro que seja chamado de objeto de aprendizagem.

    Mas existem muitas outras razões para o surgimento e consolidação do conceito “objeto de aprendizagem”. Alguns dos objetos educacionais mais sofisticados de hoje permitem coletar e armazenar dados sobre caminhos trilhados, decisões tomadas, valores de parâmetros utilizados, tempo de utilização, mudança de decisão após recebimento de feedback … Onde podem ser guardados esses dados? Eles são guardados no ambiente de curso! Isso é possível pois foi desenvolvido um modelo de comunicação entre objetos de aprendizagem e base de dados do ambiente de curso. Essa é uma das componentes do SCORM. E facilita em muito a vida de quem vai oferecer o curso. Por isso tem sido tão falado e tão usado. Lógico que existem algumas limitações sob o ponto de vista pedagógico (por exemplo, quanto às tarefas colaborativas), mas isso fica para a resposta às próximas provocações.

    Outra característica relevante dos objetos de aprendizagem é que hoje existe um certo consenso quanto a um modelo mínimo de metadados para descrever o objeto (o core do IEEE LOM). É muito útil conhecermos por exemplo o autor e instituição responsáveis pela criação de um objeto de aprendizagem, que tecnologia utiliza, tamanho, tempo estimado de uso … Outros itens do conjunto de metadados podem parecer menos relevantes, mas com a revolução que vem aí com a computação móvel daqui a pouco vamos ver exemplos de ambientes e aplicações que facilitam o acesso a objetos de aprendizagem sensíveis ao perfil do usuário, adaptáveis ao contexto onde ele está (posição geográfica, pessoas às quais está conectado, tarefas que está realizando …), que fornecem feedback adaptável ao usuário e contexto … Devemos parar nos recursos digitais do século passado ou pensar que o ambiente de aprendizagem poderá não ser mais aquele tradicional, que os conteúdos digitais não serão mais somente aqueles para serem usados individualmente, que a combinação de objetos pode ser feita em vários níveis e não somente aquela “pré-determinada” pelo professor?

    Para não parecer “viagem” de quem fala e não faz, sugiro que visitem o site o RIVED no MEC onde se vêem objetos inseridos em atividades (seguindo a linha do IMS Learning Design, agregando mais de um objeto para compor um conjunto rico de atividades) e cito um caso que o Marcos conhece bem de produção de objetos de aprendizagem em larga escala feita por alunos de ensino médio em colaboração com alunos universitários. Eles identificam no dia a dia situações problema que estejam relacionadas aos assuntos curriculares. Criam um roteiro para uma simulação. Enviam para a universidade e lá, alunos das faculdades de educação, arquitetura e engenharia da computação produzem as simulações. Nem os alunos nem os professores precisam saber o que são objetos de aprendizagem! Mas todos aprendem, e muito, no processo todo. Após terminados, esses objetos são guardados num repositório para que outras pessoas possam fazer o download e utilizar. (Recebem os metadados, são “empacotados” …). O site do projeto é www.labvirt.futuro.usp.br. Ele apareceu antes de todo esse movimento de autoria que surgiu com a Web2.0, mas segue a mesma filosofia. Marcos, você mudou de opinião quanto a esse projeto? As coisas que mencionei enriquecem o campo educacional?

    Para ter uma idéia da riqueza da discussão hoje em dia comparada à superficialidade das colocações que podemos fazer neste espaço tão pequeno, sugiro que olhem o número especial sobre Education and Pedagogy with Learning Objects and Learning Designs da edição atual (numero 23) da revista Computers in Human Behavior, da Elsevier.

  3. Marcos Telles Says:Agosto 9th, 2007 at 10:55 pm Dois exemplos do César reforçam amplamente minha tese. O site do LabVirt, vitorioso projeto por ele conduzido, apresenta “simulações feitas […] a partir de roteiros de alunos do ensino médio de escolas da rede pública […]”. Não se fala, ali, em learning objects ou objetos de aprendizagem; o site chama simulações de simulações e não tem pretensões de interoperabilidade: cada simulação é altamente contextualizada. Se alguém puder reutilizar, isso será um ganho extra pois o importante foi satisfazer a encomenda inicial dos alunos. Veja www.labvirt.futuro.usp.spSegundo o site do RIVED, o programa “tem por objetivo a produção de conteúdos pedagógicos digitais, na forma de objetos de aprendizagem” mas especifica que “os objetos de aprendizagem produzidos pelo RIVED são atividades multimídia, interativas, na forma de animações e simulações”. Ou seja, o RIVED propõe-se a produzir animações e simulações para serem utilizadas por professores em seu contexto específico. Veja http://www.rived.mec.gov.br/site_objeto_lis.phpFica claro que, em ambos os casos, foi dispensável chamar animações e simulações de learning-objects, que a contextualização é fundamental e que os conteúdos pedagógicos [é o RIVED que usa o termo] foram feitos para uso individual. Parabéns a ambos os projetos: como dito em minha postagem inicial, acredito muito em coisas feitas nesses termos.
  4. Cesar Nunes Says:Agosto 9th, 2007 at 11:50 pm Marcos, você não citou os exemplos mais elaborados ou as referências, mas entendo seu ponto. Concordo que não devemos esquecer a pedagogia nem colocar a reusabilidade como meta, mas o LabVirt foi concebido em 1999 para a realidade das escolas públicas daquela época. O RIVED foi concebido em 2000, para ser usado pelas escolas públicas. E são úteis até hoje, porém podemos almejar muito mais! Você lembra como era oferecer um curso online naquela época?O SCORM surgiu em 2000 e era chamado de Content Courseware Object Reference Model. Houve uma evolução fantástica. Vide o Moodle que você já ajuda a divulgar. Ele é compatível com o SCORM, importa “Content Packages”, entende “learning designs” … Querendo ou não as pessoas vão continuar tendo a necessidade de encontrar “conteúdos digitais” num formato que seja fácil de inserir nesses ambientes (e noutros mais sofisticados que vem por aí), de rodar, de verificar dados de quem usou, como usou … Por que fazer isso na unha se podemos encontrá-los já preparados? Então, para não criar um novo termo podemos caracterizar melhor os conteúdos que estejam preparados para facilitar a vida das pessoas: “conteúdos digitais que contém etiquetas de classificação que facilitam a busca”, “conteúdos digitais que coletam dados sobre seu próprio uso e os armazenam numa base de dados seguindo um modelo padrão que pode ser replicado”, “conteúdos digitais que na verdade são cursos inteiros”, “conteúdos digitais que são tão pequenos que não têm nenhuma pedagogia associada a eles” … Todos esses tipos de conteúdos são úteis, e conforme as pessoas foram necessitando usá-los, foram dando nomes: objetos de aprendizagem, SCOs, Content Packages …Pode ser que daqui a algum tempo não necessitemos mais, mas hoje em dia, pelo menos para quem trabalha na área, essas coisas têm sim significado. Para quem não é da área e não necessita se expressar com muito precisão os termos não são úteis. É assim em todas as profissões. E algumas profissões nem existiam há alguns anos!
  5. De Mattar » Web 2.0, e-learning 2.0, EaD 2.0: para onde caminha a educação a distância? Says:Setembro 13th, 2007 at 1:47 pm […] recentemente em um post em seu blog – por que os objetos de aprendizagem não deram certo?: Learning Objects: o fim de um sonho!) e a fragmentação e miniaturização do conhecimento (que pode transformar os educandos em […]

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